A história dos automóveis está repleta de surpresas. A máquina que mudou o mundo completou 125 anos no último dia 29 de janeiro e acompanhar sua evolução é tarefa difícil para os pesquisadores. Muitas experiências e primazias anunciadas não entraram em produção por diversos motivos, desde o custo elevado até a inutilidade dos materiais conhecidos à época. Várias novidades nasceram nas pistas de competição. Anos ou mesmo décadas depois se viabilizariam para as linhas de montagem.
Um dos episódios marcantes dessa história remonta a 1900. O início da era do automóvel foi coberto de percalços. Apenas na última década do século 19 nasceu uma incipiente indústria automobilística. Três alternativas de propulsão surgiram: combustão, vapor e eletricidade.
Justamente aí aparece um dos grandes gênios do Século 20. Ferdinand Porsche, de família de língua alemã, nasceu na antiga Boêmia, parte da Áustria-Hungria, em 1875. Precisamente na cidade de Maffersdorf, hoje território da República Checa. Portanto, não era alemão, nem austríaco ou húngaro, mas sim checo.
Porsche focou interesse inicial na eletricidade e ainda jovem se associou ao austríaco Ludwig Lohner. A Feira Mundial de Paris, visitada por cinco milhões de pessoas em 1900, exibiu os grandes avanços do Lohner-Porsche. Suprimindo eixos, correntes de transmissão e câmbio, o carro era propulsionado por dois motores elétricos nos cubos das rodas dianteiras e, apesar de baterias pesadas, alcançava autonomia de 50 quilômetros. Uma versão de corridas do Lohner-Porsche possuía quatro motores nos cubos das rodas (primeiro automóvel 4x4) e freios também nas quatro rodas, duas primazias históricas.
Um ano antes, no Salão do Automóvel de Berlim, a empresa belga Pieper apresentou o que seria hoje considerado um híbrido em paralelo: motor elétrico central conectado por embreagem a um motor a combustão que movia as rodas por uma transmissão convencional. Porém, esse carro nunca chegou a funcionar de forma satisfatória.
Porsche começou a desenvolver, no outono de 1900 – há 111 anos –, o híbrido em série a fim de aumentar a autonomia de seu carro elétrico. No Salão do Automóvel de Paris, de 1901, mostrou o protótipo batizado de Semper Vivus (Sempre Vivo), ainda sem carroceria, do primeiro automóvel funcional desse tipo. O Semper Vivus tinha baterias menores para abrir espaço a dois pequenos motores a gasolina de 3,5 cv, acoplados a dois geradores de 2,5 cv. Esse conjunto era colocado no centro do chassi, entre os bancos dianteiro e traseiro. Os motores trabalhavam separadamente e o excesso de corrente, após passar pelos motores elétricos nos cubos dianteiros, era armazenado nas baterias.
No final de 1901, a versão definitiva – Lohner-Porsche Mixte – ficou pronta e cinco unidades foram vendidas. Já apresentava aspecto convencional: motor dianteiro de 25 cv e árvore de transmissão até o gerador sob o banco.
Incrível nesse relato é que a solução hibernou, esquecida por 97 anos, até a Toyota lançar o Prius no Japão, em 1997, primeiro híbrido fabricado. Carros puramente elétricos tentaram lugar ao sol, mas fracassaram ou se tornaram aplicações de nicho. Apenas no ano passado, automóveis elétricos recomeçaram a trajetória, convivendo com híbridos. (por Fernando Calmon)

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